Friday, 10 March 2017

Porque são as mães do Sporting melhores do que as mães que não são do Sporting, exceptuando as boas mães que não sendo do Sporting gestaram sportinguistas e as velhacas que criaram brunecos.

I
Olhamos os abismos de frente e por isso mesmo, com lágrimas nos olhos, suprem-se as limitações. Ultrapasse-se a própria dor. Faça-se da deseroização do transitório a exaltação do definitivo. A mãe [a nossa natureza] não manda ser um narciso de virtudes secretas ou de falências toleradas. Ordena vitórias na colaboração, façanhas no meio da praça (...) no cerne dos continentes, nas profundas dos infernos. Miguel Torga, Ensaios e discursos, pp. 146-147

O que lá vai, lá vai -- Pedro Oliveira. Do transitório ao definitivo.

II
Iniciou em Setembro último o ciclo preparatório e diz, a sua mãe, que a motivação não só se faz presente todos os dias como tem a menina desenvolvido especiais aptidões no domínio das artes plásticas ou, se quiser, das belas artes, já que a instituição local de ensino é pioneira num semestre dedicado às aguarelas, tintas acrílicas, e guaches. Disse-me ser ainda frequente, um ano passado, acordar a meio da noite com pesadelos. «As labaredas, não consigo esquecer as labaredas que vinham na nossa direcção». Imagino ter sido o pior. «Não, não foi o pior. Angustiante foi ter gritado à Joana para que corresse e tê-la visto bater no vidro e na rede que fazia de parede». Consigo visualizar. «Gritámos para que abrissem a caixa, para que nos deixassem dali sair já que começavam os mais idosos a asfixiar com o fumo, mas ninguém se mexeu, e do lado de fora diziam somente: temos ordens do alto comando da polícia de segurança pública para aguardar». No dia em que o Benfica construiu uma caixa no seu estádio para acolher os milhares de portugueses do Sporting que se deslocaram ao seu recinto para assistir a uma partida de futebol. Percebi desde então, garanto-vos, o porquê de 'inferno'. Lógico, podendo a cicatriz não desaparecer, suplico para que sobreviva a memória. Porque me segura este homem? Para onde me leva? Não quero ir, quero ficar contigo, só contigo mamã ... palavras  choradas aos soluços pela jóia mais bonita do mundo, nas palavras de sua avó, uma menina chamada Joana que a 26 de Novembro de 2011 foi agarrada e puxada pelo braço por um steward do Benfica enquanto a forçava até à sua cadeira no presídio que esta instituição ergueu para receber as milhares de outras crianças, mulheres e homens que se deslocaram ao seu estádio.

III
Quando eu era pequeno e a mãe  me mandava para a cama, às quartas-feiras de noite, escondia o rádio para ouvir os relatos dos jogos Europeus do Sporting. Costumo dizer, na brincadeira, que vejo o mundo às riscas verdes e brancas. Sou um apaixonado pelo Sporting desde que me conheço, muito com o incentivo da minha mãe que infelizmente me deixou quando eu só tinha dez anos. Ganhei títulos, vivi muitas alegrias e algumas tristezas mas nunca me esquecerei, jamais me esquecerei, que o meu melhor momento foi quando vesti pela primeira vez aquela camisola, porque eu sabia que era o desejo da minha mãe. Ela, como já disse, era apaixonada por futebol. Além de incentivar perspectivou-me o futuro. Dizia-me sempre: primeiro irás jogar no Sarilhense, depois na CUF do Barreiro, e finalmente no Sporting, que era o seu clube do coração e também o meu. E o certo é que acertou. Nunca se lembrou de falar no Vitória de Setúbal (sorrisos), onde terminei a carreira. Ela tinha uma taberna e matava as toupeiras e os ratos que destruíram os cultivos na Quinta do Esteiro Furado. O meu pai era fragateiro, tinha um bote e passava muito tempo no mar, longe de casa. Deram-nos uma boa educação com muito carinho, amor e respeito. Sinto um grande orgulho neles.
Deus criou o homem, ou foi o homem quem criou deus? O homem criou deus. Não vou à igreja, quero que se foda, só em casamentos e baptizados, nunca fui a uma missa nem rezei, apenas acredito no Sporting e na minha mãe.
-- Manuel Fernandes

III e um pouco
... desde os tempos em que se notabilizou ao serviço de uma das suas filiais, o Sporting Clube de Luanda, até ao dia em que partiu para a imortalidade na terra. Pelo meio, a concretização de um amor a 26 de Junho de 1937 no dia em que desembarcou em Lisboa viajado de Angola a-bordo do navio 'Niassa', acompanhado pela senhora sua mãe, sportinguista, professora e agricultora de profissão, na ocasião muito doente. (Esta última parte acrescentei agora: a mãe de Fernando Peyroteo encontrava-se muito doente aquando da vinda de ambos para Lisboa. Ela foi uma heroína como só as mães do Sporting sabem sê-lo.) «A minha mãe fez-me prometer que só jogaria pelo Sporting Clube de Portugal», citação abusiva já que não estou certo das palavras terem sido exactamente estas. Extraordinária declaração e quantos conceitos nelas cabem? Entre mais: promessa, ambição, desígnio materno, promessa e desígnio materno porque atados em laço pela sua mãe.
-- Fernando Peyroteo, A minha mãe faz-me prometer

IV
Nasce-se sportinguista, está-se sportinguista ou tornamo-nos sportinguistas? Para mim é fácil: ser sportinguista, o meu pai, a minha mãe, os meus avós paternos, os meus tios paternos são (ou foram até morrer) sportinguistas. Na minha família o sportinguismo corre-nos nas veias. Detenhamo-nos na imagem (é a mesma com diferentes ampliações) que ilustra este texto ... aquilo que é o Sporting. Meninos, meninas, senhores e senhoras, brancos e negros, prostitutas, alcoólicos, pessoas de todos os tamanhos, de todas as crenças, de todas as cores, irmanados no mesmo amor filial: o Sporting, um amor filial que me leva à imagem que está ali, ao emblema do Sporting Clube de Abrantes, a quarta filial do Sporting Clube de Portugal. Lembro-me menino e moço de passar por ali e olhar aquele emblema com reverência, como algo fantástico, era, de algum modo, a minha plataforma 9 e 3/4, onde apanhava não o comboio para Hogwarts (na altura ainda não existia o Harry Potter), mas sim um tapete mágico que me levava para a relva do estádio José Alvalade, onde sonhava ver Manuel Fernandes, Damas e outros senhores que eu ouvia marcarem golos fabulosos ou efectuarem defesas impossíveis nos relatos da telefonia.
-- Pedro Oliveira, Nascer Sportinguista

Mas há mais: viu o Sporting durante quase 100 anos congregar ou convocar as energias que em abono da humanidade combateram o fascismo português e a opressão do Benfica. Aprofundemos um tanto porque dissemos na ocasião, simples e aquilo de que ninguém fala, poucos porventura conhecem: em 1974 o Sporting Clube de Portugal saiu do país deixando para trás as lágrimas de muitas famílias, mulheres, mães e crianças para em solo germânico combater na então RDA a poderosa (nesses tempos) formação do Magdeburgo. Qual a relevância deste jogo? O Sporting CP em 24 de Abril despediu-se à saída do Estado Novo de Marcelo Caetano e quando regressou da República Democrática Alemã foi acolhido por uma nação livre. Afirme alguém o rei vai nu, perguntarei por que motivo nas escolas portuguesas ninguém fala nisto. É o despido país que temos.
Ainda assim, o 25 de Abril permanece, queiram ou não Marcelo Caetano e os benfiquistas, uma dívida que deverá ser paga ao Sporting Clube de Portugal. A dívida será um dia cobrada. Ontem não te vi no estádio da Luz. Vi-te no mato, trazido pelas carrinhas e jeeps do exército a bordo de corvetas no alto-mar com os rádios emissores dos sons de guerra.

V
Pelo Tivoli passaram em mais de 90 anos alguns dos nomes mais importantes do mundo da cultura, da arte, do teatro, do cinema, da música, e do caralho. E hoje passará o mais importante pesado e titulado clube português de todos os tempos. Passar-me-á ao lado, também, nada a fazer quanto a isso. Só espero que não passe ao lado de muitos porque existem coisas realmente importantes e esta é uma. Pelos leões temos a sensível, cultivada, pura, diligente, melodiosa, mãe e sportinguista bonita Matilde Trocado ... porque para cada público, um diferente cartaz. Responsabilidade é a palavra.


Um beijinho mãe, e obrigado.
Muito bonita, tu e ela.

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