Wednesday, 17 August 2016

Liedson e algumas noções sobre bons avançados (ou outros), jogar sem esforço, 'levezinho', literalmente

Liedson Muniz foi, faz, é indiscutivelmente parte da centenária história do Sporting Clube de Portugal. Internacional português de origem brasileira, confunde-se com o palmarés recente do clube e rivaliza, em nºs, com os melhores em mais de 100 anos no seu futebol. Não esteve ao serviço da instituição 12 ininterruptas épocas como Fernando Peyroteo, nem 12 descontínuas como Manuel Fernandes. Totalizou 8 temporadas, dobro das somadas por Hector Yazalde, tempo suficiente aliado à qualidade como futebolista para que o consideremos a grande referência do ataque do Sporting pós 1987 (Manuel Fernandes). Mário Jardel, de igual modo, a par de outros, tem lugar cativo neste selecto grupo de emblemáticos avançados: segundo «bota-de-ouro» europeu na história do clube, 42 golos em 30 jogos de campeonato e 67 golos em 62 jogos oficiais ao serviço do Sporting, nºs somente ultrapassados (nas duas vertentes) por Fernando Peyroteo e Hector Yazalde.

Peyroteo, Manuel Fernandes, Yazalde, Liedson, Mário Jardel. Por esta ordem.

Futebolisticamente, um dos mitos sobre Liedson descreveu-o em Portugal, no Sporting, como um avançado mediano, demasiado valorizado e pouco evoluído que colectivamente prejudicava o rendimento da equipa, no pressuposto de que fazia golos mas penalizava a produção dos restantes 9 jogadores de campo na forma como deveriam os 10, por acções, movimentação, interagir com e sem bola. A ideia viu-se tão carregada que às tantas foi retratado como um vulgar 'amador' (no pior sentido). Nada mais errado. Para qualquer futebolista, independentemente da posição ou do conjunto de tarefas a que normalmente se dedique - por imposição, da posição - o que reúne primeiramente importância são um conjunto de atributos técnicos e a natural, passe o pleonasmo, intuição para o jogo que os faz contribuir decisivamente para o sucesso das suas equipas e clubes. Quando estas qualidades existem, técnica e intuição, quaisquer das restantes competências podem ver-se acrescentadas, desde as sobre-importante tácticas às pouco-importante físicas.

O contrário já não é verdade.

Liedson tinha-as, em quantidade muito acima da média que fizeram dele um futebolista extremamente valioso, num sentido 'diferente' dos demais já que algumas características do seu jogo batiam no topo da escala e daqui vinham os pormenores, algumas coisas que nos pés de 5 ou 6 parecem fáceis mas que só são fáceis para eles, mais ninguém. Tudo parecia, no seu caso, por vezes, demasiado simples, não-raro entre jogadores do Brasil, tecnicamente muito dotados e daqui vinham também os golos. Liedson não apontou mais de 170 golos pelo Sporting por se reduzir a uma posição passiva dentro da área ou (sentado) à frente da baliza, nem por activamente se preocupar ou procurar só zonas de finalização. Por norma jogadores deste tipo são fracos, jogam em esforço, são pouco naturais e particularmente irritantes. Não era seu o caso. Não dependia igualmente de ressaltos, ofertas e acasos. No que aos golos unicamente respeita martelava as balizas dentro da área, fora da área, afastado da área, a partir da esquerda, direita, pelo meio, com oposição, sem oposição, conduzindo a bola, em sprint, solicitado, bem ou mal enquadrado, com os pés e com cabeça. Fazia o necessário consoante os desafios que as jogadas lhe impunham, tal a gama de recursos à sua disposição, qualidades intrinsecamente ligadas à inteligência e faro para o jogo tratando-se de um jogador tão forte que chegando-lhe a bola em zonas ainda afastadas da área, a sensação de perigo iminente constrangia bons defesas a por vezes abandonar o posto para ir atrás dele.

Existem jogadores que sozinhos assaltam defesas inteiras, contando-se pelos dedos de uma mão os que deste universo são importantes.


Liedson concentrava em si a atenção de defesas inteiras, qualidade bem interessante, de resto reconhecida pelos adversários e pelos treinadores das equipas que defrontava. A somar (muito) aos atributos mencionados, uma sui generis fisionomia que lhe permitia torcer qualquer adversário e não quebrar fisicamente. Era um natural, jogava sem esforço, 'levezinho', literalmente, como as meninas Romenas ou Russas que aos 6 anos de idade já são campeãs do mundo de Ballet ou Ginástica.


Como bónus, uma personalidade sóbria ou pouco interventiva fora do relvado, focada só no jogo, com respeito pela camisola verde-e-branca que com honra, dedicação e lealdade, ao longo de 8 temporadas, envergou.

Liedson da Silva Muniz, 17/12/1977

313 jogos com a camisola do Sporting, 186 golos

Vice-campeão europeu, Liga Europa 2004/05, 2º melhor marcador do torneio

Taça de Portugal, 2006–07
Supertaça de Portugal, 2007
Taça de Portugal, 2007–08
Supertaça de Portugal, 2008

Jogador de origem estrangeira com mais golos em competições oficiais na história do Sporting Clube de Portugal, superando em 2009 a marca de Hector Yazalde.

Melhor marcador do Sporting Clube de Portugal nas competições europeias de futebol, superando em 2008 o recorde de Lourenço e Manuel Fernandes.

Jogador de origem estrangeira, ao serviço de clubes portugueses, com mais golos marcados em todas as competições europeias de futebol.

1 comment:

  1. Como complemento a algumas ideias não relacionadas com Liedson mas com as qualidades dum avançado, aproveito também para relembrar aquele que foi / é factualmente o melhor avançado na história do futebol a jogar DENTRO da área. Dentro da área: Romário de Souza.

    Por que razão faz sentido associar Liedson a Romário? Tal como Liedson, Romário também foi um natural. Puras intuição e instinto. Nunca existiu melhor. Para trás ou até hoje.

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