Tuesday, 16 July 2013

PB, Alan Hansen, Joseph Enakarhire, Gary Neville e o vínculo ao manual do «zagueiro tem de ser firme senão o avançado atropela».

Quando André Villas-Boas treinava o Chelsea, Alan Hansen, central de referência nas equipas do Liverpool que mais títulos conquistaram para o emblema de Anfield (14 anos, como jogador), justificava num estúdio de televisão quando ainda comentava os jogos da Premier League para a BBC, os porquês de David Luiz não se tratar dum central com qualidade suficiente para jogar no Chelsea FC. Todas as semanas Hansen insistia no retrato que pintava o Brasileiro como um mau defesa e entre todos os disponíveis, aquele que sistematicamente comprometia a sua equipa, provocando na altura a crítica de muita gente que acusava o Escocês de perseguição. Gary Neville (Sky Sports), ex-Manchester United FC, também defesa mas lateral, tendia a concordar e de forma simplificada afirmou que David Luiz parecia, por vezes, um defesa central controlado a partir das bancadas por um miúdo de 10 anos com o comando duma playstation.

Apropriadamente, o termo é composure, para D. Luiz, falta dela, conhecimento revelado pelos defesas conscientes da sua singular importância, por serem frequentemente os últimos homens antes do GR e, daí, tarefas a realizar no momento em que a equipa defende. David Luiz não tinha muita, motivo pelo qual constituía não um perigo mas real prejuízo para a sua equipa, para os seus colegas de sector e as suas exibições, segundo Hansen, se limitarem à acumulação de erros. Afigurar-se-á deslocado, ou assim parecerá a alguns, vermos neste contexto Britânicos medir a qualidade táctica ou dar lições de táctica sobre aquilo que David Luiz ou outros jogadores e respectivas equipas deverão ou não fazer em campo, guia de pensamento / senso comum, meio-caminho para o errado, já que não falamos de táctica. Falamos de preceitos e comportamentos. Quem tem gosto pela aprendizagem e ganha diária compreensão (mais importante do que acumular conhecimento) junto do que o Galês Miguel Nunes e o Latino PB defendem, já percebeu que táctica é um conceito difuso, sobretudo pelo mau uso que muitos lhe dão. O que será a táctica senão uma série de comportamentos a adoptar nas mais variadas situações de jogo que deverão ver-se apreendidos e reproduzidos independentemente dos sistemas A, B, C ... X, Y e Z? Sem a compreensão e o treino dos comportamentos correctos um sistema não passará duma coisa menor e tanto fará treinar e jogar em 4-3-3, 4-4-2 ou 3-5-2 que os resultados serão no fim os mesmos: desastre, da mesma forma que ao nível mais importante, jogadores e preceitos a adoptar, não chega conhece-los nem saber quais são. É indispensável saber fazer. Esta competência (saber-fazer) adquire-se não numa sala de aula mas no campo de treino e quanto maior a capacidade demonstrada pelos jogadores para reproduzi-los (preceitos) correctamente, quando para tal precisam de compreendê-los, tão mais forte a sua equipa será tacticamente.

Preceitos, ao nível dos defesas e regressando a David Luiz, posicionamento.
Têm a palavra PB e Alan Hansen:

O conceito de defender adequadamente é o mesmo que sempre foi e não tem a ver com sistemas - tem tudo a ver com posicionamento. Se por norma os quatro defesas mantiverem posições adequadas será extremamente difícil para a equipa adversária ultrapassá-los. Ao contrário, cada um por si e será uma alegria com oportunidades a sucederem-se umas atrás de outras. Quando temos um jogador como David Luiz no quarteto recuado, onde ninguém sabe o que ele vai fazer a seguir, está criada incerteza, e dois anos percorridos sobre a chegada ao Chelsea, raramente passam mais do que 5 minutos sem que cometa um erro. Sendo justo com ele, não é fácil entrar numa defesa nova. Quando Mancini afirmou que os bons jogadores podem jogar em qualquer sistema as coisas não são tão simples assim. Todos os jogadores precisam de tempo e de adaptação a novos companheiros, a um clube novo e a uma concepção de jogo desenvolvida pelo seu treinador. O problema com David Luiz é que ao fim deste tempo todo, mesmo ao lado de John Terry, continua a cometer os mesmos erros de sempre. Nos últimos 20 minutos o seu comportamento em campo foi qualquer coisa semelhante a uma farsa, mais não exibindo do que um apetite cómico para incomodar e perseguir (di-lo-ia PB, apertar) Robin van Persie no campo.


Jogará David Luiz na fina flor (elite) da selecção Brasileira por se tratar dum mau defesa? Seguro que não. Joga no Chelsea FC e na selecção do seu país por se destacar, no jogo com bola, como um defesa tecnicamente forte, importando referir que quando mencionamos jogadores tecnicamente fortes como é o caso de David Luiz, no universo de defesas, não pensamos na sua capacidade de passar, receber ou rematar uma bola. Tal será skill, ou execução. Nós falamos de outra coisa: propensão para criar. David Luiz tem-na, tendência ou capacidade que não o torna automaticamente num bom defesa porque como o próprio nome indica a principal missão dum defesa será defender.

Pense nos últimos grandes defesas centrais do Sporting, fortes ora no posicionamento e leitura (defender) ora na qualidade técnica empregue à função com bola, (leitura) criar. Nalguns casos, ambas. Tiago Ilori, Eric Dier, Daniel Carriço, Roberto Luís Severo (Beto), Anderson Polga, Joseph Enakarhire, António Nogueira Sousa (Tonel), Facundo Quiroga, André Cruz, Marco Aurélio, Stan Valckx, Nourredine Naybet e outros que poderei estar a esquecer. Há equipas ou contextos onde poderá ser importante um zagueiro apresentar-se firme. Num choque de competências entre dois jogadores com pouca qualidade, presumivelmente ficará com a bola aquele que conseguir ser mais firme ou atropelar melhor. No Sporting, muito difícil. Nem os melhores defesas se deverão distinguir pela firmeza (antes, posicionamento, leitura, qualidade técnica), nem os melhores avançados que Maurício enfrentará procurarão atropelá-lo. Logicamente, não pretendendo diminuir Maurício nem presumir falta de qualidade para jogar no Sporting, desejo somente que o seu perfil não encontre grande espelho na forma como se descreveu. Tenho a certeza que nenhum dos grandes defesas centrais mencionados acima o faria.

7 comments:

  1. Obrigado por este texto, fantástico.

    Um jogador que se caracteriza pela sua garra assume que se acha fraco pois considera que o que melhor o caracteriza é algo que qualquer um, por muito pouco que saiba do jogo e por muito pouco talento que tenha, pode ter.

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  2. Gary Neville pediu desculpa a David Luiz por esse comentário. Também não sou muito fã de David Luiz, mas tem qualidades interessantes.

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  3. MM, muito bom texto, parabéns. E aproveito uma das frases de um dos citados e do jmm que comenta acima:

    "Garra é muito importante, quando jogas à rabia é uma qualidade fundamental." jmm

    "quando estás no meio da rabia. Quando estás de fora, volta a qualidade e o talento..." LE

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  4. Texto muito interessante, vou só ter que acrescentar um nome aos mencionados, já que foi um dos melhores que vi jogar com a nossa camisola e tem tudo aquilo que refere para uma grande defesa. Luisinho.

    Cumprimentos

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  5. Lembrando o Marco Aurélio, essa forma especial ainda ganhou superior encanto quando na altura (por volta de 1997) se falou na sua ida para o Dortmund. É que além do óbvio Newcastle de Keegan e Shearer, o Dortmund era a equipa estrangeira que eu mais gostava e tinha precisamente a melhor dupla de centrais do mundo: Sammer e Kohler. Em termos absolutos (os nossos preferidos são-no sempre) Sammer era o melhor defesa central do mundo. Outro central por quem sentia muita admiração era Aloísio, do FCP.

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  6. Caro Manuel Humberto,

    Excelente texto. Para mim, o central mais completo, com mais classe e que eu adorava ver jogar foi André Cruz.

    Abraço.

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