Tuesday, 25 June 2013

O plano ou a ingovernabilidade

As opções ontem enunciadas pelo presidente do Sporting no cenário de um chumbo do plano de reestruturação financeira cuja aprovação irá a votação em AG, «plano de reestruturação, PER, ou insolvência», têm levantado alguma polémica sobre se constituirão chantagem sobre os sócios do Sporting, sócios que terão de votar sim ou não ao documento arquitectado na negociação com os parceiros. Pegando no comentário entretanto publicado aqui, acho natural que a par do que outros fizeram no passado, em especial Filipe Soares Franco, o presidente do Sporting passe a mensagem desta reestruturação ser uma espécie de 'tudo ou nada'. Di-lo quem participou na negociação, sendo normal que existindo urgência em garantir a governabilidade do clube (meios financeiros para que a SAD exerça a sua actividade), estejamos, em linguagem simplista, perante um 'tudo ou nada'.

Quando olhamos este plano temos de questionar alternativas. Existem? É um pouco como o chumbo de um orçamento em tempos de crise, cenário que pode originar uma crise ainda maior. Claro está, caso não estejamos perante um plano de reestruturação notoriamente mau que hipoteque a sobrevivência do Sporting. Nesse caso teria de ver-se liminarmente rejeitado. Não pretendo com isto sugerir que os sócios deverão aprovar esta reestruturação, tratando-se de uma decisão que cada um deverá individualmente tomar em consciência, mediante informação. Mas se é verdade que nesta reestruturação estão elementos que durante muitos anos foram criticados, em especial o empréstimo obrigacionista e esvaziamento do clube para hipotecas oferecidas aos parceiros (Banca) em relação à SAD, não é menos verdade que numa situação tão precária dificilmente esta ou qualquer outra direcção faria melhor, ou diferente.

Ainda no plano de reestruturação, porque nele inserido, relativamente à entrada da Holdimo no capital da SAD, não me sinto minimamente confortável nestes assuntos para opinar se é bom ou se é mau. Fico extremamente contente com a recuperação das percentagens dos passes de supostos 28 futebolistas bem como o desaparecimento da dívida de 20 milhões (as percentagens dos passes são mais importantes por valerem bem mais do que isso), embora 26% de controlo numa SAD afectos a um único 'investidor', Holdimo, constituam de facto uma fatia muito grande. Se poderão de algum modo constituir um perigo, não faço a mais pequena ideia.

Por último, sobre as percentagens de passes detidas pela Holdimo e desconhecimento ou anonimato em torno da relação comercial mantida com o clube, é somente normal que assim aconteça. Desafio qualquer adepto, como nós, a descortinar os nomes dos parceiros nos fundos onde se movimentam tanto o FCP como o SLB. É impossível. No caso do Sporting ficámos a saber da Holdimo porque a troca das percentagens detidas por esta sociedade por acções da SAD teria naturalmente de se ver explicada. Caso a Holdimo se mantivesse parceira nos fundos constituídos para o efeito, ainda hoje não conheceríamos o nome deste agente.

9 comments:

  1. Caro Manuel Humberto,

    Mais uma vez, obrigado pela informação disponibilizada.

    Certo ou errado, eu tendo analisar temáticas desta natureza de forma algo simplística, por reconhecer que não tenho os conhecimentos necessários para compreender a totalidade do que está a ser apresentado. Isto, além de também reconhecer que nem todos os dados pertinentes foram divulgados até hoje.

    Muito sinceramente, para lidar com assuntos desta complexa natureza, eu gostaria que a contenda fosse explicada aos sócios e adeptos do Sporting por profissionais desinteressados e peritos na matéria. Em facto, questiono quantos sócios que irão aprovar o plano no dia 30 - e não hajam dúvidas que vai ser aprovado - compreendenm verdadeiramente a totalidade do que está a ser proposto. Penso eu, muito poucos. Vamos ter dois tipo de votos de aprovação: 1) o dos que apoiam BdC em tudo sem questionar coisa alguma e 2) os que ponderam e hesitam quanto à matéria mas que acabarão por dar o benefício da dúvida por falta de alternativas e na esperança que aqui resida, em facto, as soluções para o estado actual do Sporting. Estes últimos, de certo modo pelas mesmas razões que, com hesitação, votaram nesta liderança nas eleições.

    Outra questão que me intriga: o meu colega no Camarote Leonino é perito nesta matéria, corre o mundo no exercício da sua profissão, não tem interesses pessoais alguns em jogo e tem pleno conhecimento de causa quanto ao Sporting, por circunstâncias que eu não posso revelar. Quando ele diz, em boa fé, que com este plano o Sporting vai ficar totalmente nas mãos da banca - mais ainda do que já está - quando questiona a origem dos muitos milhões que irão quase milagrosamente aparecer e levanta outros argumentos pertinentes, e Bruno de Carvalho diz exactamente o contrário, em quem acreditar ?... Este é o meu dilema e, penso eu, o dilema de muitos aócios e adeptos. Por isto, repito, gostaria que fosse possível termos profissionais sem ligação ao Sporting a explicar todas as realidades de um plano desta natureza.
    Como é lógico e expectável, este ou qualquer outro presidente, não vai explanar os negativos de um plano proposto pelos próprios. Com ou sem fundamento, acredita que é a solução e assume a missão de convencer todos do mesmo. Foi esse o seu propósito no programa da SIC Notícias: "vender o produto à audiência.

    Um abraço,

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  2. Eu gostaria que a contenda fosse explicada aos sócios e adeptos do Sporting por profissionais desinteressados e peritos na matéria.

    Já somos dois Rui, também eu gostaria de ter mais certezas e conhecer o parecer ou opinião de pessoas conhecedoras do fenómeno. Imagino que as opiniões, mesmo entre elas, divergirá. Há uns dias pedi ajuda, por sinal, a um benfiquista (BCool), mas não obtive resposta, até porque estes temas são de certo modo comuns aos 3 'grandes'. Os modos de financiamento das SAD são de grosso modo os mesmos e as dinâmicas encetadas com os parceiros (Banca) também. Subscrevo inteiramente o que diz sobre o sentido de voto na AG, tal como em 2009 o plano de reestruturação aprovado no mandato de José E. Bettencourt que fora (de grosso modo) delineado por Soares Franco viu-se ratificado sem que muitos sócios soubessem o que estavam realmente a votar. No fundo a maioria vai lá por impressões, uns mais outros menos, mas gostando-se a dado momento de uma direcção estão 4/5 do caminho percorrido para se ver aprovado o que é proposto.

    Quanto ao estarmos nas mãos da Banca, como afirmou Desert Lion, também fico com essa sensação. As dúvidas que tenho são meramente as referidas aqui: existem alternativas? Tamanho tão grande duma dívida não desaparece sem mais nem menos, alguma coisa de muito relevante teve de ser dada em troca. No limite, suspeito que em 2025 o Sporting CP ver-se-á minoritário na SAD, precisamente a favor das entidades que subscreverão as VMOC (Banca).

    Um grande abraço.

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  3. Vamos ter calma...e acreditar nesta Direcção...
    Afinal...há tantos anos que andamos a "ser levados" por sucessivas direcções, qual delas a pior...

    E agora que já "começámos a recuperar" parte do Sporting (uma maior parte dos passes parece que voltou a ser nossa...), só temos é dúvidas...?

    Eu acredito que é o vosso amor ao Sporting que vos leva a terem dúvidas...
    Eu também não tenho certezas...mas vejo aqui, uma luz ao fundo túnel...
    E vamos ter de a aproveitar...!

    Sporting Sempre...!

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  4. Partilho a dificuldade em compreender com profundidade este tipo de operações. Espero ainda ser melhor informado sobre o assunto mas, face aos "dados" que tenho (ou a interpretação que tenho face ao que tenho visto e lido), provavelmente se fosse hoje abster-me-ia.

    26& numa SAD é efectivamente muito, e deve preocupar todos. É muito peso num único acionista, externo ao Clube e que (parece-me) não terá peso semelhante em nenhuma outra Instituição que tenha como motor de negócio o Futebol (desporto). Sobretudo quando o Clube terá pouco mais de 50%... Porém, parece-me que será o negócio possível, mas perigoso: se o SCP continuar a não ter uma boa gestão desportiva, isto não só não servirá de nada, como pode tornar o problema ainda maior... e como não tenho grande confiança na competência de gestão de quem lá está (e, infelizmente, por norma tb de quem os sócios escolhem) dar tal voto de confiança é-me muito difícil...

    Mais importante ainda que a aprovação disto (que não tenho dúvidas que acontecerá) é efectivamente o Sporting aproximar-se o mais rápido possível dos rivais, desportivamente. Só isso pode trazer soluções realmente boas ao Clube. A esse nível, o Congresso Leonino parece-me (por exemplo) poder ter um maior impacto no Clube que esta AG. Temos todos de tentar contribuir, na medida das nossas possibilidades, para que o Futebol do Sporting (e, consequentemente, o próprio Clube - consequentemente porque o desempenho no futebol afecta, e prevê-se que vá afectar ainda mais, as modalidades) honre a História do Clube.

    Acho errado que se desvalorize a conversa dos treinadores, dos reforços, do plantel, etc dizendo que isso é pouco importante face a este "problema maior". Pelo contrário, é a gestão desportiva que é absolutamente decisiva. A esse nível, ouvi algumas coisas de BdC que me descansaram um pouco mais, mas mantenho-me reticente...

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  5. Aliás, Manuel, esqueci-me de referir que obviamente toda esta questão remonta à votação do Ponto 2 na AG.

    Estou expectante para conhecer o Orçamento de receitas e despesas, que é outro dos pontos que vai ser proposto. Como ainda nunca fui a nenhuma AG de votação de orçamento, queria fazer 1 pergunta que seguramente alguém saberá responder: o Orçamento a ser votado será unicamente o do Clube (modalidades), certo? É a ideia q tenho, mas sem certezas. Não percebo muito das relações SAD-Clube, mas não me parece que o facto do Futebol ser o motor do Sporting deva levar os sócios do Clube a não poderem votar os orçamentos previstos para o Futebol. Não devia ser preciso ser acionista da SAD para votar a estratégia financeira do Futebol do Clube do qual se é adepto, em minha opinião...

    Um abraço

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  6. GBC, «se o SCP continuar a não ter uma boa gestão desportiva, isto não só não servirá de nada, como pode tornar o problema ainda maior ...», essa é de facto das poucas certezas que existem, subscrevo por inteiro. Somente uma gestão desportiva de qualidade nos tirará das águas perigosas que navegamos. O mais são a obtenção de meios para ir trabalhando, meios esses negociados de X em X tempo pelos sucessivos planos de reestruturação que as direcções assinam com os credores / financiadores. Este plano é 'só' mais um na sequência de muitos anteriormente aprovados. «A gestão desportiva é absolutamente decisiva», sem dúvida.

    Sobre o Congresso Leonino, não faço nenhuma ideia, embora qualquer fórum de discussão atendido pelos sócios do clube seja de louvar. Como dizes, daí só poderão advir benefícios. Na aprovação do orçamento para o futebol, sim, eles são aprovados assembleia magna de sócios (clube). Se nesta AG, ou noutra, já não sei, mas para isso basta consultar o plano de trabalhos. Caso o orçamento para o futebol em 2013/14 vá a votos, terá de constar na ordem de trabalhos.

    Enorme abraço.

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  7. Caro Rui Gomes,

    "Outra questão que me intriga: o meu colega no Camarote Leonino é perito nesta matéria, corre o mundo no exercício da sua profissão, não tem interesses pessoais alguns em jogo e tem pleno conhecimento de causa quanto ao Sporting, por circunstâncias que eu não posso revelar. Quando ele diz, em boa fé, que com este plano o Sporting vai ficar totalmente nas mãos da banca - mais ainda do que já está - quando questiona a origem dos muitos milhões que irão quase milagrosamente aparecer e levanta outros argumentos pertinentes, e Bruno de Carvalho diz exactamente o contrário, em quem acreditar ?"

    Quando diz que esse seu colega tem pleno conhecimento de causa quanto ao Sporting é devido ao facto de ter estado ligado a direcções anteriores?
    Já agora, esse seu colega apresentou-lhe algum plano alternativo?

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  8. Com o Couceiro era praticamente certo que iríamos perder a maioria da SAD (ele próprio o afirmou), e nem se sabia em que moldes, até podíamos ter um investidor único com 51% da SAD.

    Mas agora o Bruno quer meter a Holdimo com 26% da SAD, mesmo não perdendo a maioria... e já é um problema ?

    Não entendo. Sinceramente.

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  9. João Santos, com José Couceiro nada era - nessa matéria - praticamente certo. Aquilo que J. Couceiro afirmou ao longo da campanha foi a não exclusão de nenhum cenário. Esse ponto era, ou foi, o único que levantava dúvidas sobre a sua candidatura. Não dava essa garantia, arriscarei dizer, por 3 motivos:
    1) Não se sentir confortável na temática e procurar com o tempo conselho junto das pessoas nos seus círculos em quem confiava.
    2) Ser algo que obedeceria a negociação por um lado com os credores / financiadores e por outro com os possíveis investidores, e tal só poder ser feito enquanto presidente do Sporting, nunca como candidato. Além do mais os candidatos não têm acesso aos «dossiers» sobre a matéria. Estavam naturalmente no clube, com os então dirigentes.
    3) Ser-lhe muito difícil dizer hoje (passado) uma coisa, para amanhã (presente) fazer outra, não estando certo das reais condições que o clube tinha de encontrar as soluções que lhe permitissem manter a posição maioritária.

    A par disso, em termos de desejo, sempre afirmou que o melhor cenário seria o clube manter a posição maioritária. Esse «praticamente certo» é uma interpretação abusiva das intenções de José Couceiro.

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