No que ao Sporting respeita: Inaugurado em Março de 2011, encerrado em Maio de 2014, reaberto sob o mesmo nome mas diferente endereço em Agosto de 2016, é este um pequeno e doméstico espaço onde se olha o passado, o presente e o futuro da maior potência desportiva Nacional.
Ademais: Este é um blogue pessoal no qual se vêem analisados outros temas.

Óptima sensação a de reencontrar objectos perdidos (link).

Este modesto tributo pretende homenagear um dos melhores jogadores de sempre do futebol Português, entre Portugueses e estrangeiros. O meu favorito, um entre mais ídolos e prova de que em futebol nem tudo gira em redor de clubes, termos, os de clubes, onde infelizmente, no Sporting, Pedro Barbosa pareceu / parecia muitas vezes um extra-terrestre. De duas formas:

. passou 12 ou 13 anos dentro de casa, tempo suficiente para que se confundisse com ela. A realidade, porém, é que essa associação conheceu sempre alguns obstáculos.

. percorreu 10 anos dentro das equipas da casa como jogador bastante utilizado, tempo suficiente para que estabelecesse ou trocasse com a generalidade do clube inabaláveis sentimentos de empatia. A realidade, porém, é que também nunca aconteceu. As épocas somaram-se sendo muitas vezes percebido como mais um jogador do Sporting, nunca atingindo o estatuto para o clube, com treinadores, ou na relação com os adeptos, de outros que servindo o Sporting durante 3 ou 4 anos nunca exibiram a sua qualidade.

Recordo bem a sua entrada no Sporting, 1995/1996, época na qual o Professor Carlos Queirós foi a Guimarães recrutar os Pedros, Barbosa e Martins (hoje treinador dos Marítimos), 2 dos jogadores mais influentes do clube Minhoto. Pedro Barbosa era já internacional - autor de um fabuloso golo em Eindhoven - e desde 1995, chegada, até 2005, somente numa época usufruiu de um estatuto 'incontestado', a 1ª. Durante a 2ª, ainda com Carlos Queirós, foi nalgumas ocasiões preterido. Com Robert Waseige, afável Belga, chegou inclusivamente a falhar convocatórias: Montpellier ou Nice. Partindo daí, 1996/97, ao longo dos 9 anos seguintes, a sua permanência no Sporting encontrou sempre resistência, recordando ter o clube tentado transferi-lo pelo menos numa ocasião: negócio com Paris Saint Germain a envolver a ida de Pedro Barbosa para vinda de Hélder, médio que 1 ano antes se transferira para o clube Francês, ex-Boavista FC.

Felizmente ficou, e apesar dos focos de resistência percorreu um total de 10 anos nas equipas do clube, oferecendo-me recordações de muito do melhor futebol que vi o Sporting praticar nos passados 15 ou 20 anos. Manter presente o futebol de Pedro Barbosa é, nas memórias de Sporting, estar perto do jogo no melhor dos seus alcances, juntamente com Krassimir Balakov, Luís Figo, Ricardo Sá Pinto, João Vieira Pinto, Edmilson (Brasileiro, ex-PSG), Fábio Rochemback, Hugo Viana ou Carlos Martins.

Podemos só imaginar, hoje, o que ganharia André Martins assim pudesse treinar e jogar ao lado dum futebolista como Pedro Barbosa.

O seu perfil foi de tal modo extraordinário que poderia lançar um desafio dificilmente superável: apontar um jogador (1 só) na história do futebol Português parecido com ele. Não existe, foi assim tão diferente, muito forte em quase todos os capítulos do jogo, insuperável num em particular, elemento que relacionarei a Pedro Barbosa e a não mais do que meia dúzia doutros jogadores: estética, ou estilo, algo que alguns dizem, ou defendem, não existir em futebol.

Não só existe como é senhora duma importância fundamental.

Será (não muito, reconheço) limitativo entender o futebol como um jogo de estratégia / táctica, composto por parcelas / acções / execuções, praticado por humanos e pelas suas decisões. Organização --» estratégia --» decisão --» acção, uma linha de entendimento correctíssimo mas nalguns casos incompleto. Olhando o futebol como um jogo de tabuleiro, se fosse possível congelá-lo no tempo para com vista privilegiada perceber o que se passa, sim, teremos 20 peças que irão interagir num rectângulo, e sim, será possível conceber a jogada ou conjunto de jogadas que melhor servirão as nossas pretensões. Futebol, todavia, está longe de ser damas ou xadrez, já que exibindo algumas coisas em comum:

. táctica, estratégia
. decisões, definição de jogadas
. capacidades individuais, peças de diferente valor

... enquanto nas damas ou no xadrez o enredo termina aqui, importando tão só mover as peças certas para as casas certas no momento certo, em futebol não são indiferentes a forma e o estilo como são movidas. Escrevo, by virtue of definition, não sobre um ofício mas artifício, tal como a música, pintura, literatura ou outras formas artísticas onde o estilo influencia a acção, e onde a estética tem um papel determinante no resultado final das acções.

Em último caso, do jogo.

Percebendo-o, passaremos então de um exercício válido para outro muito mais interessante, ou o segredo que confunde futebol com arte. Segredo, porque quem faz a comparação quase nunca é capaz de explicar porquê.

Nessa medida, faz-me um bocadinho de confusão ler coisas como xadrez é uma arte, ou cozinhar é uma arte, já que no tabuleiro ou na panela de cozinha que é o futebol, duas jogadas iguais, feitas no mesmo momento, traduzidas por acções que transportem a bola de A para B, no mesmo tempo, com o mesmo peso, com a mesma conta, com a mesma medida, produzirão resultados bem diferentes consoante os modos e maneiras empregues na acção. Pelo seguinte motivo: o ser humano reage ao estilo, e o estilo tem em futebol influência sobre a movimentação dos adversários e dos colegas, aquilo a que Xavi se referiu quando sobre Matt Le Tissier afirmou, he just walked past them. Para fazê-lo é necessário estilo, já que os atributos técnicos não chegam - elementos que em futebol andam de mão-dada.

Há uns tempos separei técnica de habilidade - algo bem fácil.

Neste, acrescento-lhe estética, e regresso por isso ao início. Pedro Barbosa: estilo, beleza, os atributos que ornamentando a sua qualidade técnica atiraram-no para um patamar partilhado com poucos, e por esta razão as palavras de Maradona têm completo e profundo sentido, ainda que nunca tivessem existido. Se na história do (meu) jogo tivesse de escolher 11 representantes que me ajudassem a meditar sobre futebol, Pedro Barbosa seria um dos 11 magníficos, independentemente do termo de comparação exibido:

Laudrup,
Laudrup,
Laudrup,
Maradona,
Dalglish, 
Romário,
Stojković,
Riquelme,
Lampard,
Andrés Iniesta,
Matthew Le Tissier,
Rui Costa,
Pedro Barbosa e alguns outros.

Lógico, não é isto uma coisa que todos compreendam. O génio constrói a arte e tanto o génio, como a arte, são por natureza incompreensíveis.

Somente praticáveis.

Pedro Alexandre dos Santos Barbosa, 06/08/1970
Sporting Clube de Portugal (1995 - 2005)

Vice-Campeão Europeu, Liga Europa - 2004/05, capitão de equipa
Campeão Nacional de Portugal - 1999/00, 2001/02
Campeão da Taça de Portugal - 2001/02
Campeão da Supertaça de Portugal - 1995, 2000, 2002

Título mais importante: um dos melhores futebolistas na história do futebol Português. Honra que somente alguns exibem.

Pedro Barbosa, fundamental estética ou o porquê de se chamar arte

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Tuesday, 29 May 2012

13 Comments
  1. Relendo-me, tenho de afirmar:

    Nada disto vale para o futebol que consumimos todos os dias. Sporting, Benfica, Porto e quase todos os outros. Nem sequer para a maioria do melhor futebol de clubes ou selecções.

    Este texto só encontra reflexo quando olhamos para coisas excepcionais, futebolistas diferentes (para melhor). Vale para 3% da amostra toda.

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  2. O melhor jogador Português de sempre!
    Ímpar em tudo o que fazia, no modo como fazia e no que criava em seu redor. Seriam precisos mais "mil e um" textos como estes para definir o que era Barbosa enquanto jogador, e mesmo assim aposto que no fim ficaria sempre alguma coisa por dizer.

    É o "produto" mais semelhante a Z. Zidane que alguma vez "Portugal criara", mas nunca lhe foi dado o devido valor.

    Pior que isso é que génios destes começam a ser escassos, e é o Futebol quem sai a perder.

    Ainda assim, teremos sempre a nossa memória, e essa nunca se esquecerá do que foi o maior génio do Futebol Português.

    Abraço, Jorge D.

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  3. O Pedro Barbosa era um jogador muito parecido com um dos melhores jogadores que alguma vez vi jogar: Matt Le Tissier.

    O problema e' que sao jogadores que fazem as coisas de forma diferente. E e isso, para a esmagadora maioria das pessoas, e' um grande defeito.

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  4. Na minha opinião a principal qualidade de Pedro era a capacidade de aliar a estética na execução à opção que em cada momento fosse melhor para a equipa.
    Não era jogador de andar a rodopiar com a bola para depois perdê-la ou atirá-la pela linha lateral; nesse sentido, talvez fosse um misto de Laudrup e Iniesta, provavelmente, os jogadores que pelos movimentos em campo mais se parecem com o grande e inimitável, Pedro Barbosa.

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  5. Jorge D,

    Algumas destas coisas foram escritas anteontem de noite na caixa de comentários do teu blogue, lendo o teu texto, mas às tantas olhando o comentário senti vontade de pensar sobre 1 ou 2 ideias: porque agradaram-me muito. Não sei ainda quais os elementos que devemos presumir passíveis de elogio:
    . Os elementos geniais no jogo dele? Aqueles que descreves no teu blogue e onde parecia que ele por vezes esforçava-se por não mostrar. Lendo esses parágrafos do teu texto não consegui ver naquilo outra coisa que não abnegação, porque os jogadores excepcionais são-no também: o Pedro Barbosa nunca foi um jogador interesseiro, tal como não são o Xavi, o Iniesta, tal como nunca foram o Laudrup ou o Rui Costa. São jogadores que se tiverem de tirar o pé do acelerador para esperar pelos colegas, fazem-no, com ganhos para a equipa. Não digo que o façam conscientemente. São características diluídas no génio, instintivamente está-lhes cravado no ADN o compreendimento de que o futebol não existe para masturbar relações da espécie "eu-bola-baliza". Os outros e eu, sempre, ou eu e os outros: com a bola. Futebol é isto, um jogo colectivo, de envolvimento, e o golo é um objectivo fundamental mas mera consequência. Nessa medida, secundário.

    Coisas que no seu tempo e portanto nosso, porque tivemos a felicidade de observar, jogadores como o Pedro Barbosa ou o Vialli demonstravam na perfeição. E por isso eram do outro mundo.

    Agora arrumado o génio, ainda no Pedro Barbosa: o que faz-me confusão não é a incompreensão destes atributos. São os outros: a simplicidade nos processos, o simples facto de que fazia tudo bem e que o jogo passando por ele ganhava sempre dimensão, nunca a perdia. Ele levava a equipa para a frente independentemente das dificuldades ao longo do caminho e no fim fazia aquilo que fazem os grandes jogadores de futebol: entregava a bola.

    Jorge: isto fazia sempre, em todos os jogos, quaisquer que fossem. Mas nem isto a maioria era capaz de ver.

    Dou no Sporting outro exemplo: em 2002 ou 2003 em Alvalade o Boloni num jogo qualquer de campeonato meteu a 30' do fim um jogador que pessoalmente não conhecia de lado algum: Ricardo Fernandes. Que lhe aconteceu? Pois, "é o futebol que sai a perder".

    Um abraço grande.

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  6. J,

    O Matt Le Tissier foi dos melhores jogadores de futebol de sempre, também o sinto. Nome incontornável e que como alguém disse por alturas em que foi falado num «post»: há muito arrumado no panteão, onde a fidelidade e lealdade aos Saints diz muito sobre o indivíduo que foi.

    Pedro,

    E quantas vezes fazia-o mal? Contam-se pelos dedos de 2 mãos porventura, em 10 anos de Sporting. Terei de rectificar porque apercebo-me agora que não entrou em 94/95, mas 95/96. O Sá Pinto entrou em 1994, jogou com o Balakov e com o Figo. O Pedro Barbosa nunca jogou, entrou na época seguinte quando o Búlgaro e o Figo já não estavam.

    Abraço grande aos dois.

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  7. Cajuda dixit: "se tivesse dinheiro, comprava o Pedro Barbosa e, punha-o a jogar no meu quintal, só para mim". Enorme jogador e, que saudades desse tipo de craques no nosso futebol.

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  8. Caro José Gomes,

    Essa frase fantástica não foi proferida por Cajuda, é de Quinito, um dos homens mais incompreendidos do nosso futebol, cf. aqui:
    http://gloriasdopassado.blogspot.pt/2007/12/quinito.html

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  9. Pedro,

    Fantastica composicao sobre o Quinito, ou resumo. Nunca mais ouvimos falar dele. Porque sera? Fenomenais fotografias tambem, muitas delas.

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  10. Antes de outra coisa qualquer: o post lá atrás sobre o Nélson Oliveira é das coisas mais ridículas que alguma vez li. MM, dá liberdade aos teus escribas mas dá-lhes também na carola. Aquilo é absurdo. É estúpido. É boçal. É tudo o que defendes que o futebol não deve ser. Pedro Oliveira torna-se ridículo com aquele texto. Ou tu, sendo Oliveira. Tanto faz.


    Sobre Barbosa, o Centro de Jogo já disse tudo. Tu acrescentaste e acrescentaste bem. Tanto faz se merece epíteto de "génio", "fora-de-série", "raríssimo". Era tudo isso e era também elegante, inteligente, eficaz (raramente se fala nisto, da eficácia que os génios têm sobre os outros), mordaz, honesto, bonito (a estética, a estética).

    Não sei dizer se foi O melhor jogador português de todos os tempos porque não vi todos os jogadores portugueses de todos os tempos. Se calhar, nos anos 30 houve um jogador fabuloso de que ninguém se lembra nem sabe o que foi. Se calhar. Sei que Barbosa foi um dos melhores, isso sem dúvida alguma. E acho que teria de ser aproveitado de outra forma - para além de uns comentários na televisão. Mas competirá ao Sporting valorizar os seus.

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  11. A história que o próprio Pedro Barbosa contou no programa "A Noite do Futrebol" define-o bem: Laszlo Bölöni mandou repetir várias vezes um exercício com bola num treino, aquilo não estava a correr como ele queria, até que ele mandou parar e disse para o P.Barbosa: "tá lento" e ele lhe respondeu: "tá lento não Mister, TALENTO!"

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  12. 1986,

    Há coisas em futebol difíceis de entender: as 3 fases de melhor fulgor do Pedro Barbosa no Sporting foram marcadas por 3 treinadores muito diferente. Se com José Peseiro é fácil entendermos a importância que teve naquela equipa, com Octácio Machado não será tão fácil: mas teve-a. Foi o Octávio Machado que em 1996/97 tirou o P. Barbosa da sombra em que se estava a afundar. Tirou colocando-o naturalmente dentro da equipa, e o jogador fez o resto.

    Genial esse apontamento que trazes, guardo como adepto muito boas recordações do Sporting de Laszlo Boloni. Gostava / gosto muito da sua pessoa, do seu tacto, maneiras, seriedade, mas também simpatia, e adorava ver o João Pinto, o Pedro Barbosa, o Hugo Viana e o Niculae jogarem juntos, e lembro também do que confidenciou sobre o então capitão, "quando olhei para ele julguei que fosse médio defensivo". Consigo perceber já que certa vez em Alvalade, num jogo em que não estava o P. Barbosa por algum motivo convocado, ter tido a oportunidade de vê-lo nas imediações do estádio, à entrada junto à estátua do "antigo" Leão (1999 salvo erro, num Sporting - Alverca, embora não garanta) e se na televisão a imagem que fica é a de um atleta muito elegante e fino, bonito como diz o Ricardo e muito bem, visto a 3 metros de distância tinha um porte físico que metia muito respeito.

    Recordo ainda ter o Laszlo boloni dito que foi das tarefas mais difíceis no Sporting: gerir em simultâneo a carreira de jogadores consagrados com João Pinto, Pedro Barbosa, Rui Bento e Paulo Bento, ao mesmo tempo que tinha de fazer arrancar as do Hugo Viana, Ricardo Quaresma ou Niculae.

    Dos melhores treinadores que passaram pelo Sporting nos últimos 15 anos, dono de um cantinho muito especial no coração de pelo menos este adepto.

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  13. MM, muito bom o tal artigo sobre Quinito, com imagens muito boas, de todas destaco a de fraque no Jamor, maravilhoso.

    Ricardo, bem vindo a este espaço, mas se leres com atenção, verificarás que este é um espaço de leões e os leões não têm carola nem pertencem à família das papaveraceae.

    1986, ri-me imenso com essa história, quando vi o programa, e deliciei-me com os vídeos que Pedro Barbosa levou. Tá lento? Talento, mister

    MM, quanto a Laszlo, grande jogador, grande treinador e grande Homem.
    Às vezes esquecemos que o Laszlo jogador, venceu a Taça dos Campeões Europeus, em Espanha, actuando no Estrela de Bucareste, foi em 1985/1986, frente ao Barcelona.

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