Inaugurado em Março de 2011, encerrado em Maio de 2014, reaberto sob o mesmo nome mas diferente endereço em Agosto de 2016, é este um pequeno e doméstico espaço onde se olha o passado, o presente e o futuro da maior potência desportiva Nacional.
Ademais, este é um blogue pessoal no qual se vêem analisados outros temas bem como um depósito para comentários que vou deixando um pouco por toda a parte.
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Regras superficiais de utilização: Bom-senso.

Chamo a este «post» dois nomes, três instituições e um tema triste.
Os nomes são Eusébio da Silva Ferreira e José Eugénio Dias Ferreira.

O último, para citá-lo:
É assim o "fair - play" dos Sportinguistas. 
Parabéns. Saudações Leoninas - 23/01/2010

O termo sportinguista vai muito além da filiação ou preferência clubística, como conceito oriundo da palavra escolhida por José Alvalade para baptizar o clube que fundou, Sporting, um forasteiro nome que tem um significado. Muito me orgulho tê-lo José Alvalade escolhido e se me perguntarem não poderia ter escolhido melhor. Nos dicionários de Oxford:

Sporting, [attributive]

1. connected with or interested in sport.
2. fair and generous in one's behaviour or treatment of others, especially in a contest. Justo e generoso no próprio comportamento ou no tratamento de outros, especialmente numa disputa. Parece-me claro o que sportinguista significa. Adepto do Sporting, aquilo que os termos sugerem, significará uma coisa muito diferente ... cito Dias Ferreira por uma razão: não existe sportinguismo sem fair-play e não existe fair-play sem respeito. Não existe, então, sportinguismo sem respeito, e aqui entra Eusébio da Silva Ferreira e uma das instituições para o post chamadas: Sport Lisboa e Benfica. O tema é sobejamente conhecido, infelizmente. O trato que lhe foi dado, reconhecidamente infeliz. Já lá vamos.

Quem é leitor deste espaço já se apercebeu de cinco coisas:

. não são toleradas faltas de respeito pelo Sporting CP
. não falamos necessariamente daquilo que outros falam
. não existem regras outras que não derivem do bom-senso
. cada um fala por si e ninguém compromete alguém
. todos comprometemos o Sporting Clube de Portugal

Nesta linha insere-se este texto e mantenham atenção sobre as 2 últimas das 5 supra-mencionadas: falo em meu nome, não em nome do Pedro e o que direi resulta da necessidade de desenhar um compromisso entre o Sporting CP e a infeliz questão da entrevista que Eusébio concedeu ao «Expresso».

Começarei por dizer que não li a entrevista. Como disse há dias, não teria interesse em ler o Eusébio e quem diz Eusébio diria Humberto Coelho, Fernando Gomes ou outros. É uma entrevista que embora mencione o Sporting fomentará interesse, imagino, junto dos benfiquistas. Pessoalmente, a entrevista não me desperta curiosidade. Despertá-lo-ia caso tivesse sido dada por Mário Coluna, como exemplo. São questões de gostos pessoais e nada de fundamentalmente certo ou errado. O compromisso serão, então, provar quão errado Eusébio está naquilo que as letras gordas e títulos da entrevista sugere [que não são, necessariamente, aquilo que ele disse], e provando-o da forma que me parece a mais correcta: compreendendo as suas palavras presumindo como verdadeiras as afirmações caucionadas ao Sporting de Lourenço Marques, e presumi-las desse modo porque nada têm a ver com o Sporting e não me parecem afirmações chocantes ou pouco plausíveis de conter verdade, devendo ver-se desmentidas por quem lá esteve ...

Pequena nota: há dias assistia no Yesterday (género de 'Canal História', mas pior) a um programa muito bom que olhou para a problemática Nazi associada ao desporto. Nele, imagens estranhas (a posteriori) da comitiva Britânica nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, executando a saudação Nazi a Adolf Hitler e aos seus camaradas aquando da cerimónia de abertura. Ilações? Muitas. Nenhuma que seguramente sugira descuido da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial, na forma como perdeu largas centenas de milhar de civis e militares, viu dizimadas históricas cidades Inglesas ou viu Londres endurar o brutal blitz, quando durante largo tempo se manteve isolada na guerra que levou a Hitler e ao regime Nazi.

Esta nota servirá para perguntar: por que motivos se sentirão os adeptos do Sporting chocados pela declaração de que o Sporting de Lourenço Marques era, presumivelmente, um clube da polícia, da elite e dos racistas? Alguém prova o Eusébio errado? Gentes de Lourenço Marques que viveram no tempo de Eusébio podem fazê-lo. Os outros todos (nós) o máximo que podemos é adivinhar ou inventar. O Eusébio até poderia ter dito que o sol não é amarelo e o céu vive abaixo da terra. São coisas que comprometem o Eusébio.
Foi isso que fez de resto, e nada mais.

Ao passo que muita gente olha para esta fotografia e nela vê não sei o quê, eu vejo algo que cola (talvez) com o que Eusébio afirmou: 3, ou 4, não consigo distinguir muito bem, jogadores de cor. Os restantes, brancos.

Novamente, não li nem lerei a entrevista mas também porque não preciso. Pego antes numa de 02/02/2002, bem melhor do que aquela dada ao jornal Português escusando assim de fazer publicidade a quem não merece, entrevista onde Eusébio fala (tempo passado, 09 anos), entre outras coisas, do Sporting de Lourenço Marques. Revista 'Africa Today' (link), e uma entrevista onde se pode ver Eusébio, entre mais, afirmar (novo link):

O hino do meu clube [no telemóvel] (...) eu gosto deste hino, porque há vários. Gosto deste porque ao mesmo tempo faço uma homenagem a um grande homem do Benfica, que está aqui no coração [Luís Piçarra]. Era amigo dele, quando estamos aqui a almoçar, é sempre no balcão, peço para me ligarem de propósito para ouvir o hino, porque tenho aqui os meus amigos sportinguistas. Jogar à bola não é para qualquer pessoa. Há uns que dão pontapés na bola, há outros que jogam à bola! Falo de mim e dos meus amigos de coração e colegas, Pelé, Bobby Charlton, Cruyff: esses são jogadores da bola! Hoje também há, mas não se pode fazer comparações. Tenho orgulho de estar neste grupo, porque é uma geração que não vai ser esquecida. É bonito recordar isto, porque quando vou com o meu primo e com outros amigos treinar com a minha equipa, os Brasileiros de Mafalala [bairro de Maputo, Moçambique], vamos treinar no Desportivo [Grupo Desportivo de Maputo], filial do Benfica. E não existia muito o Sporting [Sporting Clube de Lourenço Marques], que era de elite [filial do português Sporting Clube de Portugal]. O branco estava ali, o preto não era aceite. “Como eles não te querem ali eu agora vou assinar para tu jogares”, disse a minha mãe. “Mãe não faça isso, mano diga à mãe para não assinar”, respondi.

Ela de futebol era zero.

"O branco estava ali, o preto não era aceite"

Não faço ideia como as palavras de Eusébio foram exibidas no jornal Português - o título, esse, é uma vergonha - mas reparem como lidas no contexto de quem ouve rigorosamente nada têm de chocante. Foi de resto a primeira sensação que tive quando há dois dias - sem ler nada do que Eusébio dissera - me senti profundamente incomodado quando vi adeptos do Sporting em vários sítios tratá-lo de uma forma miserável. Tenho a certeza que mais sportinguistas se sentiram incomodados e é esse o objectivo deste post, expressar o incómodo e deixar claro o nojo que as palavras de ignorantes imbecis adeptos do meu clube me fizeram sentir.

O meu falecido pai, malangino [da província de Malange], não, jogou na selecção e foi transferido para os Caminhos-de-Ferro de Moçambique. Tinha sete, oito anos quando ele morreu, com tétano. Ele e o meu sogro eram amigos e jogaram na mesma equipa, o Ferroviário. Em África, onde há comboios há uma equipa do Ferroviário. Lá trabalhava-se e depois jogava-se, o meu pai era médio (...) Estamos a falar nisso e estou a puxar o princípio da conversa, o facto de o treinador não aceitar ficar com um jogador sem saber [Grupo Desportivo de Maputo, filial do Benfica]. Os colegas diziam que eu era o melhor do bairro… “Quero lá saber”, dizia ele. Arrependeu-se, porque marquei três golos ao meu clube, o Desportivo, e todos os meus colegas sabiam que era do Desportivo. Sempre disse que não sou do Sporting. Pagam [o Benfica] 250 contos, a minha mãe assina uma declaração a dizer que se o seu filho não se adaptasse o dinheiro estava depositado no Banco Nacional Ultramarino e tinha passagem ida e volta e tudo. Acabei por ganhar um prémio de 100 contos, muito dinheiro na altura. O outro treinador é que ficou mal visto, está vivo e somos amigos, vive em Carcavelos [arredores de Lisboa].

Primeira vez que leio tal coisa explicada. Já o sabia de resto, a título privado.

Nunca o Eusébio se comprometeu ou apalavrou com o Sporting Clube de Portugal. Insinuar tal coisa é um disparate, para mais quando dito como forma de maltratar o seu carácter (Eusébio). A história como a conheço - e é verdadeira - acrescenta a esta o pormenor dos dirigentes do Sporting terem tentado junto da mãe de Eusébio que assinasse um compromisso com o nosso clube. Porém, os do Benfica levaram na bagagem dinheiro. Os do Sporting, uma letra (título de crédito endossável).

Não obstante, o dinheiro do Benfica superava o montante da letra do Sporting. Mas mais, o Eusébio nunca quis jogar ou ser do Sporting.

... e vou continuar a dizer, com muito respeito que tenho pelo Sporting enquanto clube e pelos grandes jogadores que por lá passaram. O Hilário, que é mais velho que eu três, quatro anos e somos do mesmo bairro, sabia disso (...) e como ele me conhece bem falou comigo para ver se ... Mas eu disse que não, que não valia a pena. Assinei contrato com a autorização da minha mãe, aliás, ela é que assinou. (...) As equipas de África sempre jogaram como os brasileiros, é festa, o prazer no futebol (risos). Empatámos 2-2. Houve uma equipa que forçou a minha vinda para o Benfica, o Ferroviário de Araraquara. O senhor José Carlos Bauer, o treinador, foi jogador do Béla Guttmann no São Paulo, que na altura treinava o Benfica. Joguei contra eles e perdemos 3-1, mas marquei o golo. Ele é que foi falar com o Guttmann. “Mister está lá um menino espectacular, é contratar já”, disse. O processo acelerou assim. Foi quando o Benfica pagou logo 250 contos, e o Sporting, isso é que é triste, quis que viesse à experiência. Epá, não pode. A minha mãe e o meu irmão não eram malucos ...

Que tem isto de extraordinário (?) ... e o que terão as palavras de Eusébio ao «Expresso» de extraordinário? Alguém duvida que Eusébio respeita o Sporting ou tem alguns dos seus melhores amigos no Sporting? Alguém julgará que o Eusébio vê o Sporting Clube de Portugal como um clube da elite ou de racistas? Parecem-me meros pretextos, esses, pretextos para que se desrespeite um símbolo vivo do SLB sem que tenha feito qualquer coisa que merecesse desrespeito. E fazê-lo com socorro a tons racistas ou degradantes que se usam das capacidades oratórias do Eusébio ou que falam sobre a sua inteligência ... tons que nada têm a ver com o Sporting Clube de Portugal e com aquilo que é há 106 anos. É só isto aquilo que me importa afirmar.

Regresso a José Eugénio Dias Ferreira e às palavras que numa madrugada escreveu a propósito de uma visita muito especial ... a visita de Eusébio da Silva Ferreira ao núcleo do Sporting Clube de Portugal na terra onde está sediada a filial Sporting de Lourenço Marques, Maputo.

Caros amigos, é assim o fair-play dos sportinguistas e é assim o Sporting, disso não tenham grandes dúvidas, independentemente da força que uma mensagem entre muitas possa conter.
No mais pequeno dos cenários é a minha mensagem, e uma que me vincula.

Sporting CP e Eusébio da Silva Ferreira

Posted on

Tuesday, 15 November 2011

5 Comments
  1. Ora bem. Tenho duas coisas a dizer:

    Uma, simples: Obrigado.

    Outra, simples também: quero passar este texto no meu blogue. Devidamente linkado e essas coisas todas, como tu bem gostas.

    Espero permissão.

    Abraço

    Muito bonito, isto. Lindo.

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  2. MM, obrigado por escreveres como escreves e por seres como és. A pessoa que és.
    Sobre Eusébio escrevi o seguinte no «blog» do Ricardo, no auge da polémica:
    «As declarações do Eusébio e do Alan,valem o que valem, e têm a importância que têm, vindas de quem vêm...»
    «Valem o que valem» valem muito, na minha opinião, são declarações sentidas que deverão ser, devidamente, contextualizadas.
    «Têm a importância que têm», têm muita importância, na minha opinião, deverão ser, minuciosamente, analisadas.
    «Vindas de quem vêm», aqui está o cerne, o âmago da questão, nem Eusébio, nem Alan, são um Javi Garcia qualquer...
    O primeiro, o português nascido em Moçambique, a quem o melhor ponta de lança da história do futebol (um português nascido em Angola [chamavam-lhe Peyroteo])possibilitou que se tornasse internacional, pela selecção das quinas, dispensa apresentações.
    O segundo, também...
    Alan, não é um preto brasileiro, como os adeptos do clube sito na freguesia de Carnide lhe chamam, como o definem.
    Alan é um cidadão português, reside e trabalha em Portugal há mais de dez anos (aliás Luisão, Polga e Evaldo são cidadãos portugueses pela mesma razão; quando o Sporting contratou Evaldo ao Braga, o lateral esquerdo já era português... continuam a chamar-lhe brasileiro) dizia, Alan, é um português, capitão dum clube finalista da Liga Europa neste ano (na época passada) perfeitamente, integrado na realidade portuguesa.
    Alan, na minha opinião, não é nenhum tolinho acabado de chegar dum grande clube (o Real Madrid, por exemplo) com a mania das grandezas.
    Já estou a dar outro rumo a este comentário, MM, não era minha intenção, pretendia, apenas, dar-te os parabéns e acabo com um desabafo íntimo (espero que ninguém nos oiça):
    - Javi Garcia é uma espécie de Balboa (também proveniente do Real Madrid) branco mas, provavelmente, com menos massa encefálica.

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  3. "Presumir como verdadeiras as afirmações caucionadas ao Sporting de Lourenço Marques, e presumi-las desse modo porque nada têm que ver com o Sporting Clube de Portugal e não me parecem afirmações chocantes ou pouco plausíveis de conterem verdade."

    Julgo que este parágrafo transmite tudo o que achei da entrevista, porque a li. O homem não diz nada de mais, a extrapolação e o ataque ao Sporting, a existirem, são feitos entre o gravador e o leitor.

    Quanto ao Sportinguismo como desportivismo, com muita pena minha (partilhada, como vejo), temos vindo a assistir a um afastamento entre conceitos. Julgo que esta evolução se tem devido principalmente a incúria e incompetência directiva, uma vez que as diversas gerações de dirigentes não têm sabido - ou não têm tido interesse em - encontrar espaço mediático para propagar a verdadeira natureza sportinguista.
    Pelo contrário, a má imprensa do Sporting (ou para com o Sporting, porque não me parece que tenha sido e continue a ser fortuita) tem aprofundado o primarismo das reacções e opiniões.

    Mas são espaços e artigos como este que ajudam a fechar esse fosso. Obrigado.

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  4. Obrigado, MM.

    Não posso deixar passar - desculpem os ofendidos: o comentário do Pedro Oliveira é vergonhoso. Na linha do que tem feito, aqui, no meu blogue e noutros lados.

    Num post deste nível, comentar dessa forma é mostrar que nada entendeu do que foi escrito.

    Polémicas à parte, bom jogo de Portugal.

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  5. Pois não, Ricardo, não entendi.
    Obviamente não descerei ao teu nível, nem vou referir aquilo qu' A Bola diz na p.12 d´hoje, citando Eusébio: "Alan é um estúpido" e acrescenta: "Vem queixar-se que Javi Garcia lhe chamou preto? ele é preto, devia ficar ofendido era se lhe chamassem branco" fim de citação.
    Respeito muito Eusébio como futebolista e como homem, todos nós temos dias maus e dizemos coisas das quais nos arrependemos (excepto tu, claro, que és um iluminado).
    Ricardo, dar-te-ei um conselho, respeita as opiniões (e as brincadeiras) dos outros se queres que respeitem as tuas.

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