No que ao Sporting respeita: Inaugurado em Março de 2011, encerrado em Maio de 2014, reaberto sob o mesmo nome mas diferente endereço em Agosto de 2016, é este um pequeno e doméstico espaço onde se olha o passado, o presente e o futuro da maior potência desportiva Nacional.
Ademais: Este é um blogue pessoal no qual se vêem analisados outros temas.

... ou vocação, e quem no-la deu.

Se tivesse de apontar a data mais importante na vida do clube, não teria dúvidas sobre a escolhida. É na aparência curioso, mas não surpreendente, como independentemente do prisma olhado o Sporting consegue afirmar-se como uma instituição única em Portugal, entre clubes e outras instituições de espécie diferente. Em 1947, via assembleia-geral, o clube decidiu sobre todos os campos - presente e futuro - a designação Estádio José Alvalade, formulação que desejo nunca se altere já que foi a forma achada de homenagear aquele que deu vida ao Sporting.

José Alfredo Holtreman Roquette (José Alvalade)

neto de ...

Alfredo Augusto das Neves Holtreman, visconde de Alvalade

Atingiu assim o clube duas imprescindíveis metas:
1) homenagear a personalidade mais importante da sua existência
2) associar o clube ao fundador, até ao fim dos seus dias
Bendita assembleia-geral de 1947. Maldita qualquer uma vindoura que a contrarie. Imagino como seria o clube hoje sem a histórica associação ao seu fundador. Seria, ou aconteceria, o Sporting, seria tal qual os Belenenses, ou o Porto, o Benfica. Seríamos o Sporting e não diríamos, como dizemos, em Alvalade, mas em [nome designado para o campo ou estádio], da mesma forma que outros dizem o jogo no Dragão, o jogo na Luz, ou o jogo no Restelo. Os senhores jornalistas não diriam o clube de Alvalade, nem vamos enviar 4 equipas para Alvalade, mas outra coisa qualquer relacionada ao nome que o campo do Sporting mantivesse. Da mesma forma que dizem Bessa, ou Luz. 
As referências remetem para o nome dos campos, não para uma localização geográfica. O Sporting seria incontestavelmente mais pobre caso se perdesse do nome que evoca o fundador José Alvalade, daí afirmar-se como ímpar o traço que desenha a união histórica que o nome evoca, eterna referência ao fundador funcionando como uma via de dois sentidos: o clube com Alvalade na ponta da língua evoca algo e o termo Alvalade evoca algo para o clube. É um instrumento poderoso que distingue o Sporting Clube de Portugal ainda que a maioria dos adeptos do Sporting não o perceba.

Fazem hoje 93 anos que José Alvalade partiu para a imortalidade, somando muito curtos 33 anos de vida e deixando para trás uma obra sem paralelo. Visionário, um clube tão grande como os maiores da Europa não é cliché, embora se veja usado como tal. Tão grande como os maiores da Europa foi ao mesmo tempo desígnio e resumo, enquanto clube praticante de muitas modalidades, novas modalidades, presente nos Jogos Olímpicos de 1912 e um clube que em 1914 ergueu um estádio Olímpico em Lisboa - Stadium Lisboa, obra de uma formidável personalidade, José Alvalade.
Uma obra, no seu tempo, grandiosa demais.

1º dia dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, Suécia 1912

António Stromp compete nos 100 e 200 metros - primeiro atleta Olímpico do Sporting Clube de Portugal e da nação onde se baseia.

Não sei se alguma vez se perguntaram o porquê do clube ser como é. O Sporting não ostenta a bandeira ecléctica porque lhe apetece: tem em 105 anos de vida milhares de títulos porque foi programado para tal, por ter sido à nascença concebido sob o espírito que o seu fundador desejou que demonstrasse, razão pela qual se trata de vocação. Como canta o poema do Centenário, já sabias ao que vinhas, verso de interpretação literal porque José Alvalade fundou o clube que idealizou. Sabia desde o início o que queria.

O primeiro José Alvalade das nossas vidas foi o Stadium Lisboa, terceiro campo de jogos na vida do clube. Em 1956, inauguraríamos o segundo José Alvalade - estádio que todos conhecemos e precedeu aquele que temos hoje. A título de curiosidade, o Benfica em 1947 jogava no Campo Grande 412 (sob outro nome, mas Campo Grande 412), recinto que o Sporting lhe cedera «num gesto de boa vontade», utilizando-o (Benfica) durante largos anos até construir a sua própria casa - um gesto que merece relevo e um gesto que nos honra e dignifica, vista a grandeza que o Benfica exibe. A José Alvalade, neste que marca o dia da sua partida, o meu profundo obrigado pela sua honrada vida, valiosa existência e agradecimento pelo clube que me deixou, algo que nunca poderá ser retribuído, dívida que nunca poderá ser paga. Quanto ao dia mais importante da vida do clube, fácil: 10 de Outubro de 1885

José Alvalade, 
10/10/1885 - 19/10/1918

Sporting Club de Portugal, Razão de Ser

Posted on

Wednesday, 19 October 2011

4 Comments
  1. Gostei muito de ler este post! Partilho do mesmo interesse por "estes assuntos porventura desinteressantes para a generalidade das pessoas", mas que no fundo enunciam os princípios do nosso grande clube. Se conhecermos bem o nosso passado estaremos com certeza mais bem preparados para agarrar o futuro. A mística de um clube surge quando se é fiel aos seus princípios e valores e quando estes são transmitidos de geração em geração. Quando a isto se soma o sucesso desportivo então aí alcançamos a glória plena.

    SL
    Carlos

    ReplyDelete
  2. Querido amigo,

    Em se tratando da história do nosso clube sei que és o melhor contador que entusiasma e se entusiasma nessa brilhante tarefa.
    Obrigado pela dedicação e amor que demonstras em tudo o que escreves aqui ou em qualquer parte quando se trate do nosso clube.
    És um verdadeiro herdeiro do espírito de José Alvalade.

    Bem hajas grande leão

    ReplyDelete
  3. "O Benfica fora obrigado pelo Estado a ceder-lhe, por tuta e meia o Estádio das Amoreiras, inaugurado a 13 de Dezembro de 1925, com capacidade para 15 000 pessoas e considerado o melhor da Península Ibérica"

    Adoro estas tiradas históricas do senhor Zé d'Alfama.
    Aproveito para acrescentar alguns dados.
    1. Considerado o melhor da Península Ibérica pelo jornal oficial do Benfica na época, o Sport Lisboa.
    2. Quanto à questão da expropriação dos terrenos onde se situava o estádio tem razão; "por tuta e meia" é um manifesto exagero.
    3. Acho interessante ficarmos todos a saber quem marcou o primeiro golo nas Amoreiras, foi um actor chamado Eugénio Salvador. Um artista de inegáveis recursos que iniciaria uma longa gesta de futebolistas-actores (ou actores-futebolistas) equipados de vermelho; Di Maria, por exemplo, exímio a atirar-se para o chão dentro das áreas e muito bom, também, a virar-se para Lucílio Batista e a fazer queixinhas: «o Pedro Silva é mau e terá cortado a bola com a mão, senhor juiz, terá dito, enquanto batia, furiosamente, com a mão direita no braço esquerdo».
    4. Primeiro jogo do Benfica nas Amoreiras, primeira derrota, encaixou três e marcou um frente ao Casa Pia.

    ReplyDelete
  4. MM, dir-te-ia que este é um excelente e oportuno "post" mas como sabes estou impedido de fazê-lo se não lá vem o gajo do: "asinus asinum fricat", eh, eh, eh.
    Sobre José Alvalade vou contar um episódio, porventura, pouco conhecido.
    Foi o próprio José Alvalade a efectuar o primeiro projecto para os campos de jogos (ténis, críquete e futebol)acrescentando-lhe algo, absolutamente, inédito na época: balneários; os nossos jogadores desde o início tomavam banhinho nas instalações do clube.
    Ora, desde o princípio, constatamos que o "Sporting Club de Portugal" foi um clube limpo, tão limpo como os grandes da Europa e, decididamente, o mais limpo de Portugal.
    A nossa pureza estava, também, espelhada na camisola, totalmente, branca (como as que utilizamos esta época no equipamento alternativo) onde sobre o coração carregávamos o leão rampante bordado em fundo verde.
    Um clube puro e limpo que desde o início interiorizou e encarnou algo que só muito tarde seria transmitido por duas palavras: "fair play".
    Obrigado José Alvalade, obrigado Sporting.

    ReplyDelete

Search This Blog